Na
última edição do JoviJovem escrevi umas palavras, que não eram mais do que a
minha opinião pessoal, sobre a tolerância. Acabei o ano 2014 com a decisão de
que também tenho de ser mais tolerante, fazendo disso um objectivo para 2015. E
2015 lá começou envolto em festejos e sorrisos um pouco por todo o mundo. Mas o
ano não precisou de avançar muito para vermos em todas as televisões e jornais
notícias chocantes de terrorismo na nossa “quase” vizinha França.
À
morte de jornalistas de um dos mais famosos jornais satíricos do mundo, Charlie Hebdo, e de elementos das forças
policiais francesas, o mundo reagiu através das redes sociais assumindo: “Je
suis Charlie” – “Eu sou Charlie”. Lembro-me de pensar: o que é que isto
significa? O que é que significa dizer, neste momento, Eu sou Charlie?
Naturalmente que significava nada mais, nada menos do que uma grande revolta,
quase dor, provocada por aqueles atos inexplicáveis. Ninguém consegue ficar
indiferente portanto, somos todos Charlie?
O
que importa aqui, para bem da verdade, não é o Charlie Hebdo mas sim os ataques deliberados que se fazem à
liberdade de expressão. A liberdade de expressão é uma coisa muito bonita mas
demorou muito tempo a ser conquistada (recorde-se que em Portugal tem apenas 41
anos), parece-me por isso que não se deve fazer dela o que bem se entende sem
pensar nas consequências. É já antiga a conhecida frase que diz “A minha
liberdade termina onde começa a dos outros.”. Dito assim parece um poema pois,
na nossa humanidade, esquecemos muitas vezes as coisas quando não nos convém
lembrar. É duro, mas é mesmo assim.
O
que não deve acontecer é castigar quem nos ofende livremente de forma tão implacável.
Daí ser necessário termos sempre presente que devemos ser todos Charlie sem nos
esquecermos do respeito mútuo, das diferenças culturais e pessoais. Devemos ser
todos Charlie todos os dias e não apenas quando as notícias de terrorismo em
França ou na Nigéria nos deixam de lágrimas nos olhos. Devemos ser todos
Charlie não esquecendo que a tolerância é um bem essencial para a convivência
num mundo em que estamos apenas de passagem.
Na
exortação apostólica “A Alegria do Evangelho” o Papa Francisco diz: “É hora de
saber como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de
encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da preocupação por
uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões. O autor principal, o
sujeito histórico deste processo, são as pessoas e a sua cultura, não uma
classe, uma fração, um grupo, uma elite. Não precisamos de um projeto de poucos
para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um
sentimento coletivo. Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto
social e cultural.”. Se nos lembrarmos destas palavras e as projectarmos na
nossa vida talvez cada um de nós possa dizer: “Eu sou pela paz.”.
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